quarta-feira, 9 de maio de 2012

Espetacularização

 Famílias inteiras se aglomeram para ver o corpo no chão (Foto: Wagner Almeida)

O cheiro de pólvora ainda exalava no local. No chão, um homem morto por 11 disparos. Ao redor do corpo, sob o sol escaldante do meio-dia, dezenas de curiosos de todas as idades brigam pelo melhor espaço para ver de perto a cena do crime. Famílias inteiras se aglomeram na rua, meninos e meninas descalços, mães com crianças no colo, homens e mulheres que aproveitam o momento para registrar no telefone celular a “melhor” foto da vítima com a cabeça estourada, vizinhos que aproveitam a ocasião para colocar a conversa em dia. O bairro parece em festa.

O corpo continua no chão. O número de expectadores aumenta. A cena do homicídio vira um espetáculo. Piadas, sussurros e risadas tomam conta no local. Ao lado da vítima, um grupo de jovens ouve tecnobrega. O volume da música, vindo de uma pequena caixa amplificada conectada a um aparelho celular, é ampliado. Ninguém reclama. Alguns até cantam.

A multidão aumenta. Algumas mulheres levam seus pratos de comida para rua e almoçam ali mesmo para não perder nenhum minuto do “espetáculo”. Uma equipe de jornalistas chega ao local para relatar o homicídio. Uma repórter de TV é assediada por um grupo de homens na rua. Agora sim, o show está completo. “Essa é aquela que está nua no vídeo do celular”, sussurram os vizinhos.

Mais crianças chegam para ver o corpo. No meio da multidão alguém pergunta se aquele crime vai ser a capa do jornal de amanhã. Banalização. “Aqui na rua, este já é o terceiro somente nesta semana”, denunciam os moradores. Espetacularização. O tecnobrega continua a ser a trilha sonora da cena do crime. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Uma paixão que resistiu ao tempo


É num armário empoeirado, numa casa onde o tempo insistiu em parar, que o aposentado Mario José da Silva, 65 anos, guarda sua maior herança. Um acervo com lentes, flashs e mais 25 câmeras fotográficas antigas. A maioria do início do século XX. “Todo esse material foi deixado pelo meu pai. Eu tinha era mais de 50 máquinas, mas com o passar dos anos, infelizmente, algumas acabaram se perdendo. Essas aí foram as que eu conseguir preservar. Mas a minha preferida mesmo, é esta aqui” revela o aposentado, com um sorriso de uma ponta a outra do rosto, apontando para uma câmera Leika de 1917.

paixão de seu Mário pela fotografia resistiu ao tempo. Atravessou gerações. “Tudo começou com o meu pai que era fotógrafo do centro de identificação da Central de Polícia. Eu queria ser médico, mas com o passar do tempo, com os ensinamentos forçados do meu pai, eu fui me envolvendo muito com as técnicas da fotografia e acabei me apaixonando. Quando percebi já era fotógrafo profissional”, conta.

A paixão de seu Mário pela fotografia começou aos 14 anos (Foto: Cezar Magalhães)
Seu Mário começou cedo. Aos 14 anos já trabalhava com o pai, fotografando e revelando fotos de identificação criminal para a polícia. Foi nessa época que ele ganhou a primeira câmera. Uma Yashica Mat. A rigidez com que o pai ensinava os processos de revelação em preto e branco, fez com que a fórmula do revelador fotográfico ficasse gravada até hoje em sua memória. “Metol, hidroquinona, sulfito, carbonato e brometo. Se eu errasse essa ordem, ou a quantidade desses compostos químicos, eu queimava a revelação. E se queimasse eu apanhava e o meu pai mandava fazer de novo, e de novo até eu aprender”, lembra.

De todos os irmãos que também foram obrigados a passar pelos ensinamentos de fotografia impostos pelo pai, seu Mário foi o único que decidiu seguir os passos do genitor. Depois de mais de duas décadas como fotógrafo da Central de Polícia, ele foi transferido para o Centro de Perícias Científicas Renato Chaves. Lá, realizava sozinho um trabalho que, hoje em dia, é feito, pelo menos, por umas cinco pessoas.

“Nessa época eu fazia de tudo. Fotografava cadáver dentro do IML, fazia fotos para perícia na rua, fotos de identificação de presos e ainda realizava todo o processo de revelação manual para entregar o material no mesmo dia”, conta. Entre as muitas histórias vividas como fotógrafo do IML, a que seu Mario mais se recorda foi a vez que fotografou o útero de uma mulher. “A cena está na minha cabeça até hoje. Eu usava uma câmera Pentax, os médicos abriram as pernas da mulher e eu usei o zoom da lente para registrar os detalhes do útero perfurado. O mau cheiro na hora, a situação toda, e aquela imagem muito forte, foi o serviço que mais me marcou nesse período”.

Parte do acervo de seu  Mário, que guarda 25 câmeras centenárias (Foto: Cezar  Magalhães)

O excesso de trabalho no Centro de Perícias Científicas teve um preço. Seu Mário sofreu uma fadiga que o tirou à força do serviço que ele mais gostava de fazer. “O cansaço foi tanto que eu desmaiei lá mesmo no laboratório de fotografia e só me acharam no chão muitas horas depois”. O fato foi decisivo para a direção do CPC afastá-lo do trabalho e pedi a aposentadoria para o velho fotógrafo. A lembrança desse momento faz o aposentado chorar. Ele pede uma pausa na entrevista, segura as lágrimas e diz que não queria ter parado de trabalhar. “Eu adorava o meu serviço. Eu queria voltar a trabalhar”, diz, com a voz abafada, tentando segurar as lágrimas.

Longe da sua grande paixão, seu Mário resolveu montar um pequeno estúdio fotográfico improvisado na própria casa. O lugar, com pouquíssima estrutura, servia apenas para ele tirar foto 3X4 dos vizinhos do bairro onde mora, no município de Ananindeua. A ideia que começou apenas como uma forma de manter vivo o amor dele pela fotografia teve um resultado que o aposentado não esperava. O estúdio improvisado despertou na filha mais velha do segundo casamento dele, Linda Clara Monteiro da Silva, 18 anos, a mesma paixão que ele teve ao ganhar a primeira câmera fotográfica.

Linda Clara ao lado pai. A terceira geração da família apaixonada por fotografia (Foto: Cezar Magalhães)

“Foi um amor à primeira vista mesmo. Quando ele começou a trabalhar com fotografia aqui em casa eu fazia questão de estar do lado, acompanhando tudo. A minha curiosidade foi tanta que eu com nove anos já fazia fotos 3X4. E o mais engraçando é que tinha gente que fazia questão de fotografar apenas comigo. E na época, eu já me achava profissional”, conta Linda.

Ao ver o entusiasmo da filha pela fotografia, Seu Mário não teve dúvida. Colocou o nome dela no estúdio improvisado na casa. Era como se ele tivesse dado um veredicto. Linda Clara representava agora a continuação de uma paixão que começou com o avô e já resisti a três gerações. Mas uma coisa, o aposentado faz questão de lembrar. “Diferente do meu caso, que fui forçado pelo meu pai a trabalhar com isso, eu nunca forcei a Clara a nada. Se ela escolheu a fotografia foi por livre vontade”, ressalta.

Pai e filha ainda preferem câmeras analógicas (Foto: Cezar Magalhães)

A jovem lembra que o ciúme do pai pelas câmeras antigas era tanto que ele escondia elas até mesmo da família. “Antes ele não deixava nem eu pegar nessas câmeras, mas como eu era saliente, eu fuçava as coisas dele e sempre mexia em uma e outra máquina”. Foi essa curiosidade que, segundo ela, despertou o seu amor pela fotografia e a vontade de preservar o acervo deixado pelo avô.

O avanço da tecnologia não mudou o pensamento deles sobre a fotografia. Para Clara, as melhores câmeras ainda são as analógicas e ela faz questão de defender isso. “Eu não sei se foi porque eu cresci no meio de todas essas câmeras manuais e isso acabou me influenciando tanto, mas uma coisa é certa. Eu não gosto de câmeras digitais. Sei lá, acho que perde o charme da fotografia, afirma.

“Hoje eu utilizo câmera digital, mas por falta de opção. Tem muita coisa dessas máquinas manuais que a gente já não encontra mais no comércio e por isso temos que recorrer ao novo. Mas se eu pudesse mesmo, eu só utilizava as manuais. Inclusive, essas que eu guardo. Elas são minha paixão, declara o aposentado.

Diferente do que seu Mário pensava, o acervo de câmeras antigas guardadas pela família não possui somente um valor sentimental. Ele disse que levou um susto quando a filha revelou que o acervo é o sonho de qualquer colecionador de fotografia. E que o material poderia render muito dinheiro. “Eu guardei as câmeras pelo valor que elas representam pra mim e não por um valor financeiro. Enquanto eu tiver vivo, eu quero elas aqui comigo. Mas quando eu morrer. Aí já não posso fazer mais nada. É a Clara que vai decidir o destino delas”, conta, com os olhos umedecidos, tentado novamente segurar as lágrimas.

 Clara abraça o pai, e diz para ele não se preocupar. Ela não pretende se desfazer do que considera uma parte da história de sua família. “Eu sei se eu colocasse todo esse material pra vender eu poderia ganhar muito dinheiro. Mas eu não quero vender. Essas câmeras representam a memória do meu pai. E isso não tem preço”.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O estatuto do fim de nós dois


Prometemos um ao outro que era para ser eterno enquanto durasse. E foi. Os melhores dias da minha vida, as emoções mais verdadeiras, os sorrisos mais fáceis, os abraços mais demorados, as carícias mais intensas. Lembro das tantas e tantas vezes que pedi para o tempo parar. Não queria perder nenhum momento ao seu lado... Mas, perdi. Ou melhor, perdemos.

Demorei aceitar que o “pra sempre”, como postulou Renato Russo, sempre acaba. Demorei para compreender que não haveria mais segunda chance, começar de novo, recomeçar, fingir que nada aconteceu, prometer para si mesmo que a partir de agora vai ser diferente. Não, não havia mais motivo para enganar a si próprio. O fim chegou. O fato está consumado.

A partir de agora não existe mais “nós dois”. Apenas um de cada lado, com suas convicções fechadas e repetindo para si mesmo que está pronto para o novo. Não existe culpado, nem culpa, nem erro, nem pivô da separação, nem mais, nem menos. Acabou. Assim como morre tudo que um dia nasce.

Juro não tentar olhar mais para trás. Prometo não criar mais poemas que lembrem a gente. E declaro, por livre e espontânea vontade, aceitar o fim. Que sejamos felizes, não importa aonde e nem com quem. E que o fim da nossa caminhada a dois, seja o começo de novos caminhos.

terça-feira, 6 de março de 2012

Expulsos pela violência


Medo da violência faz moradores abandonarem suas casas


Depois de ter testemunhado dois homicídios no quintal do vizinho e ter a casa arrombada três vezes em menos de dois meses, a moradora da área de ocupação do Cananga, no bairro Santa Lucia, em Marituba, Região Metropolitana de Belém, decidiu abandonar o lugar em que um dia sonhou construir uma casa de alvenaria. Natural do estado do Maranhão, a mulher, que prefere não se identificar, compartilha a angústia de diversos moradores, que por medo da violência, se preparam para deixar a comunidade. “Aqui todo mundo tem uma história de brutalidade para contar. Todos aqui já sentiram na pele a violência, seja através de uma ameaça de morte, de uma agressão, de um assalto, de um assassinato a luz do dia. Só fica aqui no Cananga quem realmente não tem outro lugar para morar”, afirma.

Por medo de serem os próximos alvos da violência, vários moradores já abandonaram suas casas. “Aqui na rua onde eu moro, só tem duas famílias que aindam resistem. A maioria dos vizinhos já foi embora. Podem ver como essa rua está deserta. São várias casa, mas apenas duas com gente morando”, contou uma moradora, que vive numa casa de madeira de apenas um cômodo com o marido e uma filha. Mesmo afirmando que já foi ameaçada por traficantes, a mulher insiste em permanecer no local. “Medo todos nós temos. Mas, fazer o quê? Eu não tenho para onde ir. O jeito é me sujeitar a isso e pedir a ajuda de Deus”, conta.

Na comunidade, considerada pela polícia como “área vermelha”, a ação criminosa não perdoa ninguém. “Até o nosso pastor evangélico, líder comunitário, já sofreu um atentado. Fizeram uma ‘tocaia’ e quase acertaram um tiro na cabeça dele. Desde esse dia, ele teve que abandonar a área. Agora só vem aqui de passagem, mas morar mesmo, nunca mais”, revelou uma mulher, que como todos os moradores prefere o anonimato. “Todos nós temos medo de nos identificar. Se alguém souber que eu falei isso ou aquilo da comunidade, certamente vou sofrer ameaça. Aqui é assim, denunciou morreu. O Cananga é uma terra sem lei”, denuncia.

A falta de estrutura do local contribui para a violência (Foto: Antonio Melo)

O pastor evangélico, citado pela moradora, não quis falar sobre o assunto. Assustado, apenas confirmou o alto índice de violência na localidade. Segundo um morador, que teve o cunhado assassinado no final do ano passado na área, em menos de cinco meses, o Cananga já foi cenário de dez homicídios. Fato que revela a gravidade da violência em Marituba.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança do Pará, o município lidera o atual ranking de homicídios no estado, com 15 assassinatos já registrados em 2012. Para a polícia, o isolamento do local aliado a falta de iluminação são apontados com os principais motivos para a prática de assassinatos na comunidade.

 “Além de crimes da própria área de ocupação, o Cananga também serve com um local de ‘acerto de contas’ para traficantes de outros bairros de Marituba. Não existe nenhum tipo de estrutura aqui. É como se essas pessoas não fossem cidadãs. Não dar para resolver essa criminalidade toda apenas com um trabalho de repressão”, critica um policial militar, da 18ª Zona de Policiamento, que também prefere não se identificar.

 “Nós somos muito abandonados aqui. A prefeitura não faz nada pela ocupação do Cananga. Se agora existe alguns poucos postes aqui é porque a comunidade se reuniu, fez abaixo-assinado e lutou muito para conseguir. Mas se fosse depender de prefeito mesmo, até agora a gente estava sem luz”, denuncia uma moradora, que vive na área há três anos, mas já se programou para deixar a localidade. “Antes do final do mês, eu devo abandonar minha casa. Já fiz muito por essa comunidade, mas não aguento mais tanto crime”.

Em resposta as denúncias dos moradores, a Prefeitura de Marituba alega que o local é uma área irregular e devido a isso, a Secretaria de Obras do Município ainda não providenciou a devida infraestrutura para a comunidade. A respeito do alto índice de criminalidade na área, a Prefeitura diz que a responsabilidade pela segurança pública cabe ao governo do Estado e não ao município.

Além da violência, os moradores também enfrentam outro problema. Uma família de empresários luta na justiça pela posse do terreno onde a ocupação foi instalada. “Nós já ganhamos a liminar que nos dá o direito sobre essa área, mas a família que se diz proprietária do terreno ainda não desistiu da ação de despejo”, relatou uma moradora que já vive a três anos na comunidade. “O pior de tudo é saber que estamos sendo expulsos não por uma determinação da justiça, que seria muito ruim, mas aceitável. Mas, estamos sendo tirados a força da nossa terra por conta da violência”, desabafa a mulher.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O dia do susto no carro de reportagem ou Se ouvir Waldick Soriano não dirija

O dia teria tudo para ser mais um dia normal. Desses que só conseguimos lembrar por um curto período de tempo, pois a memória faz questão de apagar para deixar em nossa mente apenas as lembranças dos dias incomuns. Após ter feito quatro matérias, a equipe de reportagem seguia para a redação. No material colhido durante a ronda nada de anormal, apenas histórias de jovens que escolheram ou foram escolhidos pelo mundo do tráfico de drogas. Um mundo em crescente expansão numa terra onde a injustiça social é tão natural quanto o ar que respiramos.

O carro da reportagem segue a caminho da redação ao som de U2. “Essa banda de novo”, reclama o motorista, que parece não gostar nenhum pouquinho das canções do Bono. Prometo trocar o repertório do MP3 da próxima vez, deixando claro que irei selecionar as músicas de menos sucesso do grupo irlandês. “Bem que você poderia tocar aí uma música do Waldick Soriano. Tem aí no teu som?”. “Waldick , quem?”.” O Soriano, um dos maiores..”  Calma, já sei. Um cantor popular das décadas de 60 e 70 que eternizou o clássico ‘Eu não sou Cachorro não’.
Grande nome da música popular brasileira das décadas de 60 e 70

O motorista ainda arrisca cantar uma música do Soriano, mas o telefone toca. Ufa! Salvo por um toque polifônico. Atendo a ligação. Do outro lado da linha, uma voz cansada diz para eu atender ao pedido do condutor do veículo, imediatamente. “Ou você toca a minha música ou vai sofrer grandes represálias”, insiste a voz. Que brincadeira é essa? Quem está falando? A voz persiste com a mesma mensagem e desliga o telefone.

Comento com o motorista sobre a ligação. Digo que é preciso ter muita lábia para me convencer a trocar todo o repertório do U2, que levei meses para montar, por um cantor que eu mal tenho conhecimento e que a única música que conheço é “Eu não sou Cachorro não”. O motorista se ofende, diz que Waldick é a melhor representação da autentica música popular brasileira. Eu discordo e  antes de ouvir a resposta dele somos tomados por um susto. O carro em que estamos é arrastado por um caminhão caçamba carregado de seixo, que seguia logo atrás. A força da colisão destrói toda a traseira do veículo.

Apesar do susto, ninguém ficou ferido no acidente

Dentro de segundos, o automóvel começa a capotar e por pouco não somos arremessados para fora do veículo. O susto é grande. Apesar da gravidade do acidente, a única coisa que notamos na hora foram imagens girando na nossa frente. O celular tocar novamente e sem poder me mexer, preso no banco de carona, consigo apenas apertar uma única tecla do telefone, que atende a ligação e coloca o aparelho automaticamente no viva-voz.

Do outro lado da linha, a voz cansada novamente. “Eu avisei para vocês colocarem a minha música. Ninguém duvide de Waldick... Trocar a minha música por um musiquinha de uma banda irlandesa de nome duvidoso é sacanagem. Eu não sou cachorro.”

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Entre o todo e o resto PARTE II


acompanhe aqui a primeira parte deste conto

Maria acordou. Não havia carro, não havia música piegas, não havia estrada. Estava nua, deitada no chão do quarto. Por alguns segundos pensou que tudo era apenas um sonho, acreditou que jamais foi apaixonada pelo irmão adotivo. Mas uma camisinha usada, ao seu lado, escancarava a realidade que ela se encontrava. Fora a história do acidente na estrada, tudo era verdade. Estava loucamente apaixonada. Sim, acabara de beber todo o sêmen depositado no preservativo.

Aquilo era o resto. Ela queria o todo. Fechou os olhos novamente, respirou fundo, contou até a cinco, levantou e decidiu ir até o quarto do irmão. Sem bater na porta, foi entrando direto no cômodo e encontrou o homem da sua vida no banheiro, apenas de toalha, fazendo a barba. Não queria mais o resto.

Antes dele falar qualquer palavra, ela o abraçou forte, arrancou a toalha do corpo dele e o beijou na boca. Queria o todo. “Pára Maria. Isso é loucura. A gente não pode fazer isso”, disse ele, enquanto segurava as mãos dela e tentava se esquivar dos beijos. Ela fingia não ouvir. Ele continuava resistindo. Ela insistia. “A gente não pode. Nós somos irmãos. Isso é...”. A fala dele foi interrompida por um novo beijo. A persistência dela venceu. Ele ficou excitado.

Não tinha mais como fugir. Finalmente ela teria o todo. “Isso é loucura”, sussurrou ele, enquanto acariciava os seios da mulher que tanto resistiu. “Concordo com você. Isso é loucura. Mas atire a primeira pedra quem nunca cometeu uma”, sussurrou ela, enquanto lambia a orelha dele.

Sem perder tempo, fizeram amor ali mesmo no banheiro. Ele ainda tentou pegar uma camisinha, dentro do armário fixado na parede, mas ela disse que não. Queria o corpo dele por inteiro. Aquilo era o todo. Não havia mais espaço para o resto. Fechou os olhos e em oração pediu para o tempo parar naquele exato momento.

Abriu os olhos. Não havia mais banheiro nem corpos suados, não existia mais o todo. Na sua frente, uma estrada vazia e um velocímetro marcando 180 km/h. Estava desnorteada dentro de um carro, ouvindo uma canção romântica piegas. “Meu Deus! O que está acontecendo comigo?” Não havia mais nenhum indício de razão em sua mente. O carro acabara de se chocar de frente com um caminhão.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As guardiãs do ritual


Donas-de-casa, empregadas domésticas, feirantes, costureiras. Mulheres que passam o resto do ano vivendo a margem da sociedade assumem um papel de inversão social durante o ápice da Festividade de São Benedito de Bragança-PA, realizada entre os dias 18 e 26 de dezembro. É neste período que elas se tornam as protagonistas da cidade, através do ritual da Marujada. Uma manifestação popular que ocorre há 214 anos no município.
O ritual teve inicio no século XVIII, em 1798. De acordo com os historiadores, tudo começou quando alguns escravos, em manifestação de agradecimentos aos senhores que permitiram a fundação de uma irmandade para louvar São Benedito, começaram a dançar em frente aos casarões da época. “De lá para cá, a tradição permaneceu viva na identidade e no cotidiano dos moradores de Bragança. Tornando-se uma das manifestações culturais de maior resistência na Amazônia”, explica o historiador Dário Rodrigues.

A Marujada proporciona à mulher uma valorização jamais vista em outras manifestações culturais de caráter popular. A luxuosidade e o colorido presente nas roupas das marujas chamam a atenção de qualquer espectador. A saia rodada, a blusa branca rendada e o chapéu coberto de plumagem e enfeitado por longas fitas coloridas na parte de trás, compõe a vestimenta típica delas e afirmam quem são as protagonistas da festa.

Aos homens, cabe um papel secundário. Em relação a elas, os marujos são meros acompanhantes de dança. A roupa deles é nitidamente mais simples. Calça branca, camisa de manga comprida branca ou azul, dependendo do dia da apresentação, além de uma fita amarrada ao braço esquerdo e um chapéu de palha revestido por tecido branco. “Tudo como manda o figurino”, afirma dona Araci Corrêa, capitoa da Marujada. Principal cargo hierárquico da manifestação, uma espécie de chefe das outras marujas.

Ex-vendedora de mingau, dona Araci decidiu ser maruja pela forte identificação que sempre teve com os rituais em homenagem a São Benedito. “Quando eu era criança e olhava aquelas marujas dançando eu ficava encantada, achava muito bonito ver aquele pessoal dançar e dizia pra todo mundo que quando crescesse eu ia ser maruja”, conta emocionada.

Vivendo atualmente numa cadeira de rodas e impedida de trabalhar de “mingauzeira” na feira da cidade devido a uma amputação na perna causada por problemas relacionados ao diabetes, ela teve sua rotina completamente alterada após o acidente. “Eu só parei de trabalhar por causa dessa perna, não dá pra sair todo dia de manhã pra vender mingau. É muito ruim ficar aqui nessa cadeira. Eu nunca fui de ficar parada”, desabafa.

Mesmo com a perna amputada e impedida de dançar, dona Araci faz questão de acompanhar todos os rituais da Festividade de São Benedito. Sem nenhuma modéstia, ele lembra o quanto dançava bem todos os ritmos da Marujada. Xote, retumbão, mazurca, chorado, valsa, contradança. Com uma prótese mecânica, adquirida com a ajuda de amigos, ela consegue ficar em pé e acredita que um dia poderá voltar a dançar. “Enquanto isso, eu me balanço aqui mesmo sem sair do lugar”, diz com um sorriso de uma criança que acabara de ganhar um brinquedo.

O mesmo brilho dos olhos com que dona Araci fala da manifestação é visto no olhar de da costureira Maria do Socorro Sousa, 41 anos, que participa do ritual desde criança. “Eu comecei a ser maruja no colo da minha mãe. Desde os dois anos de idade. Ela fazia questão que eu saísse vestida igual ela no dia da festa de São Benedito”, lembra emocionada. O amor pela tradição atravessou gerações. Hoje, Maria que faz questão que a neta dela, de três anos, esteja vestida a caráter no principal dia da festividade bicentenária.

E existe idade para parar de dançar na Marujada? “Claro que não”, responde a vice-capitôa,
Ozarina Mescouto, 66 anos, que participa há 45 anos da manifestação. Para ela, o ritual é uma necessidade para a vida. “Eu não sei se conseguiria viver sem participar da Marujada. Isso é um dos maiores prazeres que eu tenho na vida. Eu só penso em parar de dançar quando eu morrer”, afirma. “A Marujada é tudo para a gente, é a época que eu me sinto mais valorizada na cidade”, completa a aposentada Almerinda da Silveira, 68, que participa há três décadas da festa.

Segundo o historiador Dario Rodrigues, a inversão que as mulheres proporcionam na cidade durante os dias da festividade de São Benedito é nítida não apenas no caráter visual e na quantidade, mas na relação social que elas passam a exercer. “São as mulheres que abrilhantam a festa. A elas cabe o papel de abrir e fechar as danças da Marujada”, explica.

Inversão social que dona Sandra Oliveira, 41 anos, sente na pele. Maruja desde os 11 anos de idade, a empregada doméstica que mora em Belém há duas décadas, faz questão de viajar para Bragança todos os anos para exercer o que ela chama de “obrigatoriedade de devota”. Vaidosa, ela prepara com meses de antecedência todos os colares e adereços que vai usar durante a dança. “Eu danço e rezo ao mesmo tempo. Sou devota de São Benedito e uma das marujas dele. E para mim, participar da festa e dançar todos os anos significa prestar minha homenagem ao santo preto da maneira mais bonita possível”, diz emocionada.